4 de julho de 2010

75: O autocarro da praia

Foi já no Verão de 1992 que os autocarros da Carris surgiram subitamente decorados com anúncios em A3, colados no vidro traseiro, anunciando a nova carreira 75. Inaugurada a 4 de Julho daquele ano, esta carreira partia do Marquês de Pombal (onde efectuava terminal na lateral Norte, conjuntamente com o também extraordinário 70F) e seguia directo pela Auto-Estrada até à Costa da Caparica, efectuando terminal na zona de todas as carreiras especiais da época balnear.

Na altura, a numeração das carreiras de autocarros estava a começar a perder a sua organização definida ao longo dos anos setenta – a inauguração do 100, 101, 103, 104 e 105, em 1991, tinha quebrado a divisão em carreiras normais (até ao 68), futebol (70 a 73), expressos (80 a 85) e Linha Verde (90), misturando um expresso (o 101) no meio das carreiras normais. Contudo, houve alguma lógica ainda por trás da escolha do número 75 – para além de ser fácil de memorizar –, já que esta carreira única tinha um número também isolado – que ao longo dos anos noventa ficaria também inserido no meio de outras carreiras regulares.

Em particular nos primeiros anos, o 75 foi alvo de acções de marketing especialmente direccionadas. Compreende-se: com um tarifário especial, não aceitando passes e exigindo uma quantidade exorbitante de módulos (seis por viagem, mais um do que a viagem mais cara possível na rede normal), era uma atraente fonte de receitas. Concebida para aproveitar os novos autocarros articulados durante um periodo em que praticamente não circulavam (na altura poucas carreiras os usavam, e praticamente só aos dias úteis), o 75 depressa revelou o seu potencial como fonte de receitas extraordinárias.

Se em 1992 o serviço da carreira se efectuou ao longo dos meses de Julho, Agosto e Setembro, nos anos seguintes o seu serviço começou a concentrar-se mais no início do Verão: meados de Junho a meados de Setembro (1993) e, a partir de 1994, do primeiro sábado de Junho ao primeiro domingo de Setembro. Em 1993 a campanha de promoção da carreira contou com viagens extraordinárias a partir de vários pontos da cidade, organizadas em colaboração com Juntas de Freguesia, por forma a dar mais visibilidade à carreira.

Em 1994 o serviço do 75 foi prolongado a Entrecampos, num terminal colocado a meio caminho entre as duas paragens-zona em frente da Feira Popular. Para além das habituais brochuras informativas com percurso e horário, a promoção este ano incluiu a distribuição de T-shirts de propaganda. O último prolongamento teve lugar em 1997, passando o terminal a efectuar-se no novo interface do Campo Grande, com um percurso assegurando ligação com um único transbordo a praticamente qualquer ponto da rede de transportes. O bilhete de praia de uma ou quatro pessoas tornou-se também o título de transporte preferencial, válido no resto da rede durante um dia.

Em termos de paragens, o 75 também não sofreu grandes alterações ao longo dos anos. Para além dos prolongamentos, as únicas mudanças neste campo foram a supressão da paragem do OndaParque (na via rápida da Caparica) por motivos óbvios após o encerramento daquele parque aquático, e a alteração de terminal na Costa da Caparica, decidida pela Câmara Municipal responsável por aquela localidade.

A supressão do 75 nunca foi esclarecida. A 9 de Setembro de 2006, dia de inauguração da Rede 7, foram substituídas todas as placas de paragem da rede – mantendo-se as placas especiais do 75, que aliás ainda circulou nesse dia (sábado) e no seguinte. Seguiu-se a prevista supressão do fim da estação. As estatísticas de 2006 (com dados relativos a 31 de Dezembro) ainda indicam a existência duma carreira sazonal; mas o 75 desapareceu dos registos e no ano seguinte não voltou a circular – embora se mantivesse por mais de um ano uma paragem sua erradamente colocada no Campo Pequeno.

Os motivos que levaram à supressão da carreira mais rentável da rede não são claros. Não foi decerto por fala de procura: embora a sua frequência fosse reduzida, nomeadamente ao sábado, nalgumas viagens o 75 andava com os seus 158 lugares completamente preenchidos; e a receita de bilhetes ao motorista num domingo de sol chegava a atingir os mil euros por chapa. Com um percurso longo (e especialmente demorado), o 75 não tinha tão poucas chapas como isso, pelo que o valor total de receitas não era nada desprezável.

Pode ter sido uma questão de alvarás, pode ter sido uma questão de filosofia de rede (concentração dos recursos em Lisboa), ou pode até ter sido um simples esquecimento. Pode parecer absurdo – mas para quem observou a situação como espectador, a sensação transmitida foi mesmo de que nunca mais ninguém se lembrou de pôr aquela carreira a circular.

É provável que algum dos leitores saiba dar mais informações sobre o fim desta carreira; estejam à vontade para os partilhar nos comentários.

8 comentários:

  1. Tudo o que vou dizer é especulação:
    - Problemas de alvarás: aquela carreiras penetrava bem no interior do coração dos Transportes Sul do Tejo (creio que havia carreiras especiais para a Costa de outras transportadoras da margem norte. Alguém sabe se ainda existem?)
    - Coincidiu com a primeira fase da rede 7, a qual, como se vê na realidade, pressupõe uma redução de serviço à noite e aos fins-de-semana (acho pouco provável esta explicação, mas já acredito em tudo)
    Por esquecimento? Não me parece.

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  2. @Ricardo: essa da "redução de serviço à noite e aos fins-de-semana" parece as tretas das Juntas de Freguesia. À noite posso garantir-te que neste momento a oferta é superior à de há quatro anos atrás...

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  3. Sorte de quem passa nas zonas onde isso acontece!
    Olha para as carreiras que havia à noite há 4 anos em Xabregas e compara os horários com os de agora!
    Ainda sou do tempo em que o 59 era de 15 em 15 minutos durante toda a noite em vez daqueles impossíveis de memorizar 23/24 minutos e tinha o 39 de 20 em 20 mais o 28 (desse nunca soube a frequência).

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  4. A RL faz 4 carreiras para a Costa todos diariamente.

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  5. A Vimeca faz a 138 para a Costa Caparica aos Sábados e Domingos.

    A Carris poderia lançar um serviço sazonal de Praias, constituído por 3 carreiras com 2 viagens por dia em cada sentido. Uma para Benfica, outra por Laranjeiras, Telheiras e Lumiar, e outra pelos Olivais, Encarnação e Moscavide.:)

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  6. @Anónimo das 22h58: Por Olivais, Encarnação e Moscavide chegou a haver. O 75 fez viagens extraordinárias com partida de Moscavide Centro pelo menos em 1993.

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  7. Grandes tempos! Aqueles articulados,sem ar condicionado, eram saunas autênticas nos dias de calor. Nas ninguém se aborrecia com isso. Havia de ser agora. É comum que serviços rentáveis desapareçam das empresas de capitais públicos.

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  8. "É comum que serviços rentáveis desapareçam das empresas de capitais públicos. "

    Infelizmente é mesmo isso que acontece! :(

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