5 de janeiro de 2011

9 e 9A: O autocarro de Campo de Ourique

Quando a rede de autocarros se começou a desenvolver, a primeira prioridade da Carris foi dotar de transporte público os novos bairros que não eram servidos por carreiras de eléctricos. A primeira excepção foi, a 1 de Março de 1946, a inauguração da carreira de Campo de Ourique – o 9.

O 9 foi a última carreira a ser inaugurada sem número. Ligando a Baixa (Restauradores) a Campo de Ourique, complementava o serviço dos eléctricos da circulação da Estrela – cujos extraordinários também efectuavam precisamente essa ligação – e a linha Rossio/Prazeres; em qualquer dos casos, porém, o 9 era substancialmente mais rápido, efectuando a ligação entre os terminais em apenas quinze minutos. Com três autocarros, a carreira tinha intervalos de dez minutos entre carros durante o seu período de funcionamento, que incluía dias úteis e domingos a partir da uma da tarde. A outra grande vantagem, relativamente ao eléctrico, era o percurso por dentro do bairro de Campo de Ourique, complementando o serviço das carreiras mais antigas, que só circulavam nos eixos principais. Quando o serviço de autocarros penetrou a Baixa pela primeira vez, a 17 de Novembro de 1947, o terminal do 9 foi transferido para a Praça do Comércio. A frequência passou a ser de nove a doze minutos, aos dias úteis, e doze a quinze, aos domingos e feriados, já com serviço de manhã desde uns meses antes.

Durante os mais de sessenta anos que esteve em circulação, o 9 (mais tarde com o 9A)foi sempre assumidamente o autocarro de Campo de Ourique. A sua evolução foi mais ditada pelas restrições que foram sendo impostas ao trânsito automóvel no interior do bairro (cujas ruas em 1940 eram amplas mas no final do século estavam intransitáveis) do que à evolução da rede. Certo, o “outro” terminal foi sendo transferido: primeiro para Santa Apolónia, em 1957, com desdobramentos (o 9A) apenas até à Praça do Comércio; em 1963, veio o grande prolongamento ao Bairro da Madre de Deus, com o 9A a ir até Santa Apolónia a partir do ano seguinte; em 1984 a carreira foi encurtada a Santa Apolónia, sendo suprimido o 9A; e a 5 de Janeiro de 2008, com a passagem à Rede 7, o 9 foi substituído pelo 709, retomando o terminal original desde a Praça do Comércio.

Muito mais interessante é perceber o que se passou nas entrelinhas. A elevada frequência da carreira de Campo de Ourique, que antes da divisão em duas tinha intervalos de cerca de nove minutos, tornou-a extremamente prática para usar como reforço nas zonas em que o serviço de eléctricos deixava a desejar – como era o caso do eixo ribeirinho oriental. O prolongamento a Santa Apolónia quer do 9, em 1957, quer do 9A, em 1964, tiveram precisamente essa motivação. Aliás, o percurso do 9 entre a Baixa e Santa Apolónia efectuava-se pelo eixo interior e não pela rápida Avenida Infante Dom Henrique – sendo substituído pelo 9A em meados dos anos sessenta. O prolongamento ao Bairro da Madre de Deus foi novamente uma forma de reforçar o serviço a um bairro novo, que ganhou assim uma ligação directa não apenas à Baixa, mas a outros pólos da vida citadina, como o Rato e a Avenida da Liberdade. O encurtamento a Santa Apolónia foi circunstancial: com o aumento da procura naquela zona e o desenvolvimento dos primeiros arruamentos a permitir o serviço de autocarros entre a Madre de Deus e Chelas, a Carris optou por restruturar o 9 e o 9A, mantendo apenas a segunda (com o número 9, claro está) e criando em lugar da primeira o 59. A opção teve os seus apoiantes e os seus opositores, como sempre; para os habitantes de Campo de Ourique, o resultado foram frequências comparáveis apenas aos autocarros de Benfica – seis minutos durante todo o dia – e novamente um autocarro dedicado apenas ao bairro. Em Junho de 1995, a dificuldade crescente de circular pelo interior de Campo de Ourique levou a nova divisão da carreira, nascendo o 74 (que rapidamente ganhou vida própria) e passando o 9 a circular com autocarros articulados. Só nessa fase é que a frequência do 9 baixou para os nove minutos – correspondendo efectivamente a uma manutenção da oferta. A redução da procura a partir dos anos noventa não afectou muito a carreira – levando apenas ao uso de autocarros standard nos períodos de férias e de mini-autocarros à noite.

A caracterização do 9 como autocarro de bairro é evidenciada pelo seu percurso em Campo de Ourique. O percurso original em Campo de Ourique, pela Tomás da Anunciação com terminal na Carlos da Maia, manteve-se apenas durante três anos: ao juntar-se-lhe o 13 (que era para ser o outro autocarro de Campo de Ourique, mas que já nasceu prolongado a Campolide), o percurso do 9 foi ajustado por forma a circularem em conjunto, passando a incluir as Ruas de Infantaria 16, Carlos da Maia e Sampaio Bruno, com terminal na Rua Correia Teles. Uns meses antes, a carreira tinha também passado a circular pelo Marquês de Pombal (em vez de seguir com os eléctricos directamente pela Alexandre Herculano), situação que se manteria até às medidas de redução da circulação de autocarros na Rotunda, na segunda metade dos anos sessenta.

A chegada do 9A também permitiu transformar o 9 numa carreira de circulação, a partir de Julho de 1958, servindo a Parada dos Prazeres. À ida, o 9 passou a circular pela Parada dos Prazeres, Estrada dos Prazeres, Rua Gervásio Lobato, Rua Sampaio Bruno, Rua Correia Teles, Rua Carlos da Maia, Rua de Infantaria 16 e Rua Tomás da Anunciação até à Rua Saraiva de Carvalho, voltando para Santa Apolónia; o 9A efectuava o mesmo percurso em sentido inverso. Só em meados dos anos sessenta, na sequência de problemas de tarifação e ocupação dos veículos, é que as viagens passaram obrigatoriamente a terminar na Rua de Infantaria 16, funcionando o terminal de facto como tal.

Com a instituição de sentidos únicos, o percurso do 9 e do 9A sofreu ajustes no início dos anos setenta. À data do 25 de Abril, o 9 circulava pela Domingos Sequeira, Saraiva de Carvalho, Francisco Metrass e Infantaria 16 até ao terminal, retornando pela Almeida e Sousa, Tomás da Anunciação, Saraiva de Carvalho, Rua do Patrocínio e Rua de Santo António. Já o 9A seguia pela Domingos Sequeira e Saraiva de Carvalho até aos Prazeres, subindo a Sampaio Bruno e Almeida e Sousa até ao terminal na Rua de Infantaria 16, e retornava pelas Ruas Freitas Gazul e Gervásio Lobato até à Saraiva de Carvalho, juntando-se aí ao 9. Pouco tempo depois, o percurso de ambas as carreiras tinha sido uniformizado pelo correspondente ao do 9, com circulação em ambos os sentidos pela Domingos Sequeira.

A restruturação de serviço nocturno de 1987 levou o 9 a ficar-se pelo Rossio a partir das 21h30, terminal que se manteria anacronicamente até Novembro de 2005, cinco anos depois de os terminais naquela praça serem oficialmente desactivados. A partir daí, as viagens nocturnas (desde há muito efectuadas por uma chapa de 74) passaram a seguir até à Praça do Comércio, antecipando em pouco mais de dois anos o que sucederia à carreira – com a ligação a Santa Apolónia tornada redundante devido à expansão do Metro.

Depois de sessenta anos de evolução constante, o 9 passou à Rede 7 na forma duma carreira quase igual à sua versão original – no que é certamente um dos melhores exemplos de como, em planeamento de transportes, algumas ideias são mesmo intemporais.

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